Morei
sozinho numa casa geminada durante alguns anos. E posso dizer, com
sinceridade, que minha vida tinha a ver com a dos outros moradores
apenas na medida em que eu compartilhava paredes reforçadas com dois
vizinhos, e usava o mesmo corredor comum para sair e entrar. Água e
luz eram serviços individualizados. Garagem não tínhamos e, graças
a Deus, o interfone funcionava direito.
Brejo das palavras
sexta-feira, 27 de abril de 2012
sábado, 25 de fevereiro de 2012
nos subterrâneos
“Na virada do século, eles conhecerão seu destino: uma rosa que floresceu nos destroços ou que floresceu tarde demais.”
Alan Moore e David Lloyd, V de Vingança
Prólogo
14 lampejos (e 6 lampejinhos) do amanhã num mundo depois da ruína e antes da salvação.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
alvorada
Ela anda pela calçada sob as lâmpadas de sódio. Está muito escuro ainda. Vez ou outra um vento frio varre a rua, então ela cruza os braços sobre o peito, apertando os ombros com as mãos. Desde a parada de ônibus um cão vira-lata (desnutrição visível, orelhas tristes e pelo amarelado) vem seguindo Karina.
domingo, 29 de janeiro de 2012
só uma carta
Esta carta vem sendo escrita
nos silêncios entre as conversas
(bons silêncios esses,
pois quando a gente fala
a vida nos escapa).
A felicidade não mora
em minha cidade.
Algumas pessoas vem procurá-la
aqui. Outras, em outros lugares.
E essa é a ilusão que aquece
o mercado imobiliário e bota
colchões em cima de velhas kombis.
Os dias áureos de faculdade,
de bebedeira, de suposta independência,
de amigos. Coisas boas,
em certa medida presentes
em qualquer lugar.
Sabe, as cidades se parecem muito:
todas elas tem seus estudantes,
seus bêbados, seus escritores
com dilemas morais,
suas garotas desejadas e
perdidas, suas depressões.
Toda cidade tem.
Mas só quem tem
uma vida de merda
sabe a parcela de ridículo
que há em tudo isso.
O que me incomoda
é você ainda não entender.
Meu colchão continua
sobre a cama, as camisetas
e a mochila no guarda-roupa,
e o copo vazio.
Não importa o tipo de vida
que a gente tenha, já que
só nos resta vivê-la.
Nesse aspecto, as vidas também
se parecem.
Últimas novas:
aqui, em minha cidade,
voltou a chover,
as sombras se alongam e os silêncios
ficam mais amplos.
A gente envelhece muito depressa.
nos silêncios entre as conversas
(bons silêncios esses,
pois quando a gente fala
a vida nos escapa).
A felicidade não mora
em minha cidade.
Algumas pessoas vem procurá-la
aqui. Outras, em outros lugares.
E essa é a ilusão que aquece
o mercado imobiliário e bota
colchões em cima de velhas kombis.
Os dias áureos de faculdade,
de bebedeira, de suposta independência,
de amigos. Coisas boas,
em certa medida presentes
em qualquer lugar.
Sabe, as cidades se parecem muito:
todas elas tem seus estudantes,
seus bêbados, seus escritores
com dilemas morais,
suas garotas desejadas e
perdidas, suas depressões.
Toda cidade tem.
Mas só quem tem
uma vida de merda
sabe a parcela de ridículo
que há em tudo isso.
O que me incomoda
é você ainda não entender.
Meu colchão continua
sobre a cama, as camisetas
e a mochila no guarda-roupa,
e o copo vazio.
Não importa o tipo de vida
que a gente tenha, já que
só nos resta vivê-la.
Nesse aspecto, as vidas também
se parecem.
Últimas novas:
aqui, em minha cidade,
voltou a chover,
as sombras se alongam e os silêncios
ficam mais amplos.
A gente envelhece muito depressa.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
chuva
Como a chuva cai
e abafa a cidade!
Meu guarda-chuva se dobrando todo
sob os pingos grossos.
O peito seco, de poeira,
debaixo da abóbada preta.
A voz silenciada pela chuva.
Tudo o que se ouve é chuva.
Como a chuva cai
e abafa a cidade
e me abafa também.
Trago nas mãos
ao abrigo da chuva
uma coleção de pessoas
que não sei bem como organizar.
Guardo-as nos bolsos
mas fogem de mim para lugares
aonde minha voz não chega
interceptada pelo barulho da chuva.
Quase choro porque
não posso chover sobre elas.
Quero estar em casa
onde a chuva não é tão forte
e, de cortinas cerradas, não vejo
o vidro ser lavado.
e abafa a cidade!
Meu guarda-chuva se dobrando todo
sob os pingos grossos.
O peito seco, de poeira,
debaixo da abóbada preta.
A voz silenciada pela chuva.
Tudo o que se ouve é chuva.
Como a chuva cai
e abafa a cidade
e me abafa também.
Trago nas mãos
ao abrigo da chuva
uma coleção de pessoas
que não sei bem como organizar.
Guardo-as nos bolsos
mas fogem de mim para lugares
aonde minha voz não chega
interceptada pelo barulho da chuva.
Quase choro porque
não posso chover sobre elas.
Quero estar em casa
onde a chuva não é tão forte
e, de cortinas cerradas, não vejo
o vidro ser lavado.
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